Por que estão comparando Chaiany, do BBB, com Macabeá, personagem de Clarice Lispector
Espectadores traçam paralelos entre a participante do programa e a protagonista de "A Hora da Estrela"
Mais um ano começou, e com ele mais uma edição do Big Brother Brasil. Mas se alguém dissesse que em plena 26ª edição do programa haveria uma participante que levantaria paralelos com uma das maiores personagens da literatura nacional, ninguém acreditaria. A goiana Chaiany Andrade, de 25 anos, vem ganhando as graças do público com seu jeito simples e divertido. Para além da conquista dos quase 3 milhões de seguidores que já acumula nas redes até o momento, sua personalidade carismática também vem impulsionando uma comparação bastante original. Para alguns internautas, Chaiany seria uma versão real e contemporânea de Macabéa, a protagonista de “A Hora da Estrela“, de Clarice Lispector.
Quem encabeça esse movimento é o autor e criador de conteúdo Patrick Torres, que fez um vídeo traçando paralelos entre a jovem goiana e a mais famosa protagonista de Clarice. A comparação viralizou e já conta com mais de 1 milhão de visualizações e milhares de comentários. “Meu Deus, sim!! Tudo faz sentido agora”, comentou uma usuária. “Eu fiquei fascinada com esta comparação”, disse outro.
+ Por que os jovens se identificam tanto com as obras da Clarice Lispector?
Em “A Hora da Estrela”, de 1977, conhecemos Macabéa, uma jovem nordestina pobre e iletrada que migra do sertão alagoano para o Rio de Janeiro. Pobre e solitária, ela é quase invisível para o mundo: come pouco, sonha pouco e aceita a vida sem questionar. Sua existência é marcada pela falta de afeto, de oportunidades e até de consciência sobre a própria miséria. Macabéa não se percebe infeliz — apenas vive, mecanicamente.
A história é narrada por Rodrigo S.M., um narrador-escritor que comenta o próprio processo de contar a vida da garota, interrompendo a narrativa com reflexões sobre literatura, culpa social e o direito de falar pelo outro.
Macabéa moderna
Para começar, os internautas apontam algumas semelhanças entre a participante e a personagem clássica. Ambas têm origem humilde no interior: Macabéa, órfã, vem do Alagoas, Chaiany, do interior de Goiás, onde trabalhou desde cedo na roça do Vale do Paranã. As duas dispõem de uma certa ingenuidade e doçura que parecem contrastar com a dureza da “cidade grande”.
“Eu nunca vi uma grama tão bonita”, disse a sister deitada no jardim cenográfico do reality. É sintética, adverte outro participante. “É, eu vi, mas é tão bonita”, responde. No próprio vídeo que viralizou, o influenciador traça um paralelo entre a admiração de Chaiany pelo cenário com a cena da adaptação cinematográfica de “A Hora da Estrela” em que Macabéa diz que gosta de passar os domingos passeando de metrô, porque o metrô é “tão bonito”.
+ Descubra em quais universidades se formaram estes 5 escritores brasileiros
Ainda que o contexto de “cidade grande” seja diferente para as duas, ambas ocupam um papel semelhante: a oportunidade de mudar de vida. Macabéa migra para o Rio com o objetivo de trabalhar como datilógrafa (devagar porque só entende “letra por letra”) e morar numa pensão para moças, ainda que sem ambições ou planos futuros. Chai, por sua vez, se inscreve para entrar no maior reality show do Brasil e ganhar R$5 milhões. “Véi, aqui é muito chique”, declama a sister encantada pela casa do BBB.
– […] Escuta aqui: você está fingindo que é idiota ou é idiota mesmo? – Não sei bem o que sou, me acho um pouco… de quê?… Quer dizer não sei bem quem eu sou. – Mas você sabe que se chama Macabéa, pelo menos isso? – É verdade. Mas não sei o que está dentro do meu nome. Só sei que eu nunca fui importante… está dentro do meu nome. Só sei que eu nunca fui importante…
+ “A paixão segundo G.H.”: o livro enigmático de Clarice Lispector
Heroínas invisíveis
Sua entrada, inclusive, não foi pela escolha do público. A participante estava na dinâmica da Casa de Vidro do Centro-Oeste, com outros três concorrentes; dos quatro, somente dois entraram na casa por votação popular. Chaiany fez parte do grupo de repescagem no Quarto Branco, onde passou mais de 100 horas a base de água e bolachas, sem dormir em uma cama ou tomar banho.
Entrou na casa, enfim, porque resistiu na dinâmica do programa — não porque foi escolhida na Casa de Vidro. As penitências para entrar no reality só refletem a sua própria vida, que diz ser sempre daquele jeito mesmo: nunca é a escolhida, nunca ganha nada. Chega a acreditar que já entrou no reality cancelada, mas que não tem medo porque “já é cancelada pela vida e pela família”. Vivendo hoje no Distrito Federal, não tem mais relação com o pai e os irmãos.
“Eu sou a improvável da minha família, a que nunca valeu nada, eu sou a que nunca casei, eu desrespeitei“. Chaiany é mãe solo; engravidou aos 15 anos na primeira relação sexual que teve. “Eu era um bicho do mato, não sabia falar, conversar, me defender, nem defender ela”, disse sobre a filha, que nasceu com hidronefrose renal — condição em que o rim do paciente incha devido ao acúmulo de urina — e hoje vive com apenas um dos dois órgãos.
+ O livro brasileiro que chamou a atenção de Olivia Rodrigo
Longe do vitimismo
A educação também ocupa um lugar sensível na vida de ambas. Chaiany — que nunca concluiu o Ensino Fundamental e começou a trabalhar nas lavouras aos 10 anos de idade — diz ser burra. “E quem é burra aqui, faz o que com essas provas de vocês?”, chorou a sister frustrada com a sua performance em uma prova do reality.
Macabéa, por sua vez, também não concluiu os estudos e conhece o mundo por meio do seu rádio, sintonizado na Rádio Relógio, que informa as horas intervaladas entre anúncios e curiosidades. Palavras como “mimetismo”, “renda per capita” e “designar” são como grego para a alagoana. Quando pergunta ao namorado Olímpico o que significam, é recebida com rispidez e impaciência.
O que fascina em ambas, e mais motiva essa comparação no fim das contas, é que as duas poderiam se esconder atrás das máscaras do vitimismo. Mas optam por só seguir em frente, com certa teimosia mecânica — afinal, é a única defesa contra uma vida de adversidades contínuas. “Gratidão, BBB, gratidão”, entoa Chaiany, nesse que já quase virou o seu bordão.
6 livros curtinhos (e excelentes) para ler em um único dia
Prepare-se para o Enem sem sair de casa. Assine o Curso GUIA DO ESTUDANTE ENEM e tenha acesso a todas as provas do Enem para fazer online e mais de 180 videoaulas com professores do Poliedro, recordista de aprovação nas universidades mais concorridas do país.





