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Por que algumas fronteiras nos mapas são simplesmente linhas retas?

Não são acaso e nem decisões estéticas: as "fronteiras geométricas" são frutos de decisões políticas, disputas de poder e uma lógica imperialista

Por Luccas Diaz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 17 jan 2026, 15h00
Mapa dos Estados Unidos em tons de cinza sobre um fundo azul de planta arquitetônica, com duas mãos segurando uma régua e um lápis sobre a região sul do país.
 (Canva/Guia do Estudante)
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Ao observar um mapa político com atenção, não é difícil reparar que algumas fronteiras entre países (ou, em alguns casos, entre estados de um mesmo território) seguem linhas completamente retas. Basta olhar o continente africano, as unidades federativas dos Estados Unidos, algumas regiões do Oriente Médio, e até alguns trechos entre estados brasileiros. São fronteiras muito diferentes da maioria, que segue características naturais da região. Por que isso acontece?

Para começar a entender esse fenômeno, vamos recorrer à definição dada pela Geografia Política: fronteiras são entendidas como limites juridicamente reconhecidos entre Estados soberanos. Diferentemente de barreiras naturais (aí, sim, do campo da Geografia Física), como cordilheiras ou cursos d’água, são construções humanas, definidas por tratados, acordos diplomáticos ou imposições políticas.

Como explica o geógrafo suíço Claude Raffestin, no livro “Por uma geografia do poder”, a ideia de fronteira como uma “linha precisa” no mapa é relativamente recente e se consolida com o fortalecimento dos Estados territoriais a partir da Idade Moderna (1501-1800).

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Fronteiras geométricas

Nesse processo histórico, surge o que os estudiosos chamam de “fronteiras geométricas“. Limites traçados com base em meridianos paralelos ou segmentos de reta definidos por coordenadas geográficas. Ao contrário das fronteiras naturais, elas não seguem o relevo ou a ocupação humana, por exemplo, mas, sim, critérios sintéticos, como coordenadas geográficas, marcos artificias ou facilidade de representação em um mapa.

Ainda segundo Raffestin, a introdução de fronteiras lineares foi uma resposta à necessidade crescente de controle mais rigoroso do território. Linhas retas e coordenadas exatas permitem ao Estado maior fiscalização, planejamento militar e administração estatal, ainda que ignore realidades sociais complexas.

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O mapa como instrumento de poder

A imagem mostra o mapa-múndi temático do IBGE em que o Sul está voltado para cima, com a rosa dos ventos indicando S no topo e N embaixo, rompendo com a convenção eurocêntrica tradicional. O Brasil aparece centralizado em amarelo, com destaque para Belém, Rio de Janeiro e Ceará, sinalizando seu papel na presidência do BRICS e do Mercosul e na realização da COP-30.
Mapa-múndi temático do IBGE, com o Sul no topo e o Brasil em destaque no centro (IBGE/Divulgação)

A consolidação das fronteiras geométricas está também ligada ao próprio papel do mapa. O historiador da cartografia J. B. Harley destaca que mapas políticos não são representações neutras da realidade, são instrumentos de poder, usados para afirmar soberanias e legitimar decisões territoriais.

Um mapa-múndi lançado pelo IBGE em 2025 chamou atenção por inverter a orientação tradicional — com o sul voltado para cima — e por colocar o Brasil no centro do globo. Naquele ano, nosso país foi presidente do BRICS e do Mercosul, além de sediar a COP-30.

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Embora parte do público o tenha considerado “errado”, o mapa está tecnicamente correto e cumpre função pedagógica, mostrando que não há “cima” ou “baixo” no planeta, apenas polos e orientações definidas pela rosa dos ventos.

O mapa reflete sobre os padrões de leitura cartográfica e chama atenção para o eurocentrismo consolidado nos mapas convencionais.

+ O que o mapa-múndi invertido do IBGE nos ensina para o Enem

Ao transformar o espaço físico em uma superfície legível e mensurável em dados e linhas, um mapa permite que governantes, militares e diplomatas tomem decisões muitas vezes sem nem ter contato direto com o território. É mais simples definir um limite por coordenadas do que descrever detalhadamente características naturais.

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Essa lógica também ajuda a explicar outra razão pela qual há tantas fronteiras retas em alguns países: no mundo das relações diplomáticas, elas facilitam a redação de tratados, aparenta uma certa neutralidade para os dois lados, reduzem ambiguidades jurídicas e gozam de uma “objetividade técnica” que favorece quem está fazendo a divisão.

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Imperalismo

Charge política colorida de 1898 mostra um grande bolo redondo com a palavra “CHINE” ao centro sendo dividido por líderes imperialistas europeus e um samurai japonês, enquanto um oficial chinês da dinastia Qing, ao fundo, ergue os braços em desespero. Ao redor do bolo, vê-se a rainha Vitória, do Reino Unido, com uma faca; o kaiser Guilherme II, da Alemanha, cravando uma faca no centro; o czar Nicolau II, da Rússia, apontando para um pedaço; a figura de Marianne, representando a França, observando de perto; e um samurai, representando o Japão, inclinando-se pensativo com uma faca na mão.
Charge francesa de 1898 satiriza o imperialismo ao mostrar potências europeias e o Japão repartindo a China como um bolo. Vemos a rainha Vitória, do Reino Unido; o kaiser Guilherme II, da Alemanha; o czar Nicolau II, da Rússia; a figura de Marianne, representando a França; e um samurai, representando o Japão (Wikimedia Commons/Reprodução)

É por isso que é no contexto das relações entre Império e Colônia que as fronteiras geométricas realmente se intensificam. Na Conferência de Berlim (1884-1885), potências europeias dividiram o continente africano em zonas de influência para cada país, estabelecendo limites que, em muitos casos, seguiam paralelos e meridianos. Pouco se importou a distribuição de grupos étnicos, das línguas faladas ou dos sistemas políticos pré-existentes naqueles locais.

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Essa divisão arbitrária e sintética da África criou Estados que separaram comunidades ou reuniram grupos rivais sob a mesma autoridade política. Desrespeitando, com isso, qualquer tipo de cultura, identidade ou condição histórica. Situação semelhante ocorreu no Oriente Médio após a Primeira Guerra Mundial, com acordos como o Sykes-Picot (1916), que redesenharam a região segundo interesses dos europeus e não dos locais.

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Vale destacar, no entanto, que nem todas as fronteiras retas são heranças coloniais. Alguns países já independentes recorreram a linhas geométricas para organizar expansões territoriais ou resolver disputas, como ocorreu em partes da fronteira entre Estados Unidos e Canadá, definida por paralelos geográficos ao longo do século 19.

No Brasil, embora a maior parte das fronteiras internacionais siga rios e outros elementos naturais, há alguns trechos de fronteiras geométricas. O principal é na fronteira com o Uruguai, que foi estabelecida por acordos diplomáticos no século 19 e consolidada pelo Tratado de Limites de 1851, usando coordenadas geográficas para traçar a divisão.

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Dentro do próprio território brasileiro, também é possível identificar outros casos. A divisa entre Mato Grosso e Goiás segue, em parte, linhas retas definidas por coordenadas geográficas, assim como parte das fronteiras de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia. E, claro, o Distrito Federal que, criado oficialmente em 1960, teve o território recortado a partir de Goiás em um desenho quase geométrico, a partir de coordenadas e marcos artificiais.

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Por que algumas fronteiras nos mapas são simplesmente linhas retas?
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