O que os leitores não perceberam em “Noites Brancas”, livro russo que conquistou o TikTok
Atenção: esse texto contém spoilers – e você corre o risco de sair com o coração partido

Um casal se conhece ao acaso, descobre que compartilha alguns gostos e experiências e se afeiçoa. O rapaz, apaixonado e nas nuvens, logo idealiza uma vida a dois. A moça, mais realista, não promete nada em troca, e escolhe um outro sujeito que a faz se sentir de um jeito que o protagonista jamais foi capaz. Está parecendo obra de Mark Webb, diretor de “500 dias com ela”? Bem, saiba que o russo Fiódor Dostoiévski cantou essa bola 161 anos antes, no livro clássico “Noites Brancas“. A história de amor entre Nástienka e o Sonhador é tão atemporal que conquistou uma legião de jovens fãs brasileiros. No TikTok, eles expressam sua indignação, identificam-se com um ou outro personagem e dizem nunca ter sofrido tanto por uma história de amor que não fosse suas próprias. Afinal, o que esse romance tem de tão especial?
Ai de mim que sou romântico – ou nem tanto
Fiódor Dostoiévski é um dos maiores nomes da literatura russa, e foi alçado a esse panteão principalmente por livros escritos em sua fase mais madura. Você certamente já ouviu falar de Crime e Castigo, certo? A novela queridinha do BookTok, no entanto, está na outra ponta: foi o segundo livro escrito pelo russo, quando tinha apenas 25 anos.
Neste momento, a literatura do país era marcada pelo realismo, e os críticos olhavam torto para quem se arriscasse em romances mais açucarados. Para um leitor mais desavisado, esse pode parecer o caso de “Noites Brancas”, e o enredo ajuda a entender o porquê.
O livro relata o encontro entre Nástienka, uma jovem de 17 anos, e o Sonhador, de 26. Este não é o nome do protagonista, que não é revelado no livro, mas é como ele se autointitula.
Tarde da noite, o Sonhador vagava pelas ruas de São Petersburgo quando viu a menina próxima a uma ponte, em prantos. Não conseguiu abordá-la, mas resolveu segui-la pela rua para garantir que chegaria a seu destino em segurança. Os dois se aproximam quando um bêbado tenta assediar a moça, e o Sonhador intervém para salvá-la.
A partir daí, selam uma relação de cumplicidade que ambos nunca tinham experimentado – para ele, logo vira uma paixão avassaladora, para ela, uma amizade que beirava a irmandade.
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Ao longo de quatro noites brancas, eles se encontram e caminham pelas ruas fantasmagóricas de São Petersburgo. E “noites brancas”, vale dizer, não é só uma metáfora dos encontros etéreos. Por causa da posição geográfica da cidade, ela recebe maior incidência de raios solares nos meses de junho e julho. Com isso, o sol nunca se põe totalmente, resultando em noites… bem, brancas.
O fato é que o Sonhador, um leitor voraz que passou toda sua vida fantasiando histórias sem nunca criar conexões reais, pela primeira vez se vê diante de um amor real. E não consegue cumprir um dos primeiros pedidos que Nástienka o fez: que não se apaixonasse por ela.
A razão para o pedido se revela lá pelo meio do livro: o coração da jovem já era de outro. E é com ele que Nástienka fica no final, deixando o Sonhador devastado, mas também grato e resignado.
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Ok, mas e se contássemos que em meio a todo esse dramalhão, o livro também deixa espaço para uma ou outra risada? Lançando mão da paródia, Dostoiévski conseguiu imprimir o realismo da época em seu livro mais romântico! A pompa, linguagem rebuscada e os rompantes do Sonhador acabam dando a ele uma aparência de bobalhão – uma forma do autor ironizar e até reinventar a escola romântica, ultrapassada na época.
“Podemos considerar que esta novela, ao menos em parte, representa uma paródia de obras românticas”, afirma Nivaldo dos Santos, professor de russo na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). No posfácio da edição publicada pela Editora 34, o especialista diz que o Sonhador é caracterizado como um personagem ridículo, que vive uma “realidade imaginada, romanceada, enquanto a realidade exterior à sua imaginação, a do mundo em redor, aparece sempre distante”.
Sonhando acordado?
Mas se você acha que a paródia é o maior “easter egg” deste livro, prepare-se para uma segunda teoria dos críticos. Em uma vídeoaula da Editora Antofágica, o historiador e doutor em Literatura e Cultura Russa pela FFLCH-USP, Lucas Simone, explica que, em russo, existem duas palavras diferentes para denominar o sonho. Uma se refere àquele sonho enquanto estamos dormindo, em um sentido mais literal, e a outra designa os sonhos como aspirações, devaneios – o famoso “sonhar acordado”.
“O que é curioso é que aqui esses dois sentidos parecem que se misturam, porque na novela trata-se do sonhador que sonha acordado – esse alguém que tem devaneios, esses desejos – mas ao mesmo tempo tem essa ambientação noturna, essa luz meio tênue, meio difusa, que dá um ar meio onírico de fato à trama. Faz a gente pensar no sonho em um sentido literal”
O que ele quer dizer com tudo isso? Bom, você pode se perguntar se toda a história do Sonhador com Nástienka não foi, de fato, apenas um sonho. “É sempre bom pensar que nestas tramas em primeira pessoa o narrador nem sempre é muito confiável, não dá para levar tudo que ele diz ao pé da letra”, completa o historiador.
Afinal, vale lembrar que a primeira frase do livro nos transporta para essa atmosfera dos sonhos, em que tudo é mágico e diferente da realidade: “era uma noite maravilhosa, uma noite tal como só é possível quando somos jovens, caro leitor”.
E aí, topa reler este clássico com um novo olhar?
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