A origem da palavra “carnaval”, que é mais literal do que você imagina
Séculos antes de Cristo, versões da festa já aconteciam como rituais em homenagem aos deuses
Já reparou que alguns feriados e datas comemorativas têm nomes que, de cara, não parecem dizer nada? Pense só: os nomes “Páscoa” e “Natal” são bem diferentes de “Dia das Mães” ou “Tiradentes”, por exemplo, que são nomeações óbvias ou mais diretas. “Carnaval” entra no primeiro grupo — e não à toa. Tanto “Páscoa”, “Natal” e “Carnaval” têm seus nomes originários a partir do cristianismo. Páscoa vem do hebraíco pessach, passagem da morte para a vida, Natal vem do latim natalis, relativo ao nascimento — no caso, de Jesus de Cristo. E Carnaval? Qual seria a origem dessa palavra tão única? Uma coisa a gente já adianta: o significado é bem literal e em nada lembra os desfiles ou festas exuberantes de hoje em dia.
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A etimologia mais aceita deriva do latim carnem levare, que significa “retirar a carne” ou “afastar-se da carne”. A expressão surgiu na Idade Média, por volta dos séculos 11 e 12, para designar o período imediatamente antes à Quaresma, quando os adeptos da religião cristã iniciavam 40 dias de penitência antes da Páscoa, sendo uma das principais, o jejum de carne vermelha.
“A festa de Carnaval simbolizaria uma espécie de despedida dos prazeres mundanos antes do tempo de recolhimento espiritual”, explica Ana Paula Aguiar, professora e autora de História do Sistema de Ensino pH.
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Isso não significa, porém, que a festa teria sua origem no cristianismo, para além do nome que conhecemos hoje. Na verdade, o feriado é uma verdadeira mistura de outros rituais e celebrações que já eram praticados ao longo da História, antes de Cristo, em diferentes regiões. Entre as principais, podemos citar as Dionísias gregas e as Saturnálias romanas, que envolviam banquetes para os deuses, danças, festas mascaradas e muito vinho.
Essas celebrações profanas marcavam tanto transições pastorais, como o fim do inverno e o início de um novo ano, além de representarem momentos de inversão social e desordem hierárquica. As Saceias, por exemplo, eram festas na Babilônia (antiga Mesopotâmia, atual região do Iraque) em que um prisioneiro ou escravizado era eleito rei por cinco dias, vivendo todos os seus privilégios e regalias, só para depois ser açoitado e morto.
Ou seja, a ideia de um período de desordem, luxúria e prazeres carnais sempre esteve associada ao feriado. O que a Igreja Católica fez na Idade Média foi aglutinar essas celebrações pagãs e transformá-la em um ritual cristão — em significado e finalidade — até como uma forma de combatê-las. O termo carnem levare, portanto, designaria o momento que precede o início da quaresma, um “último suspiro” antes de iniciar as penitências do período na Quarta-Feira de Cinzas.
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Claro que esse carnaval institucionalizado pela Igreja Católica em nada se assemelhava aos rituais, sacrifícios ou atos profanos das celebrações pagãs. Parte da incorporação do feriado ao calendário cristão foi também uma tentativa de higienização dos seus principais costumes, estipulando uma versão light do feriado. No entanto, o DNA lascivo, de inversão social, de desordem, de prazer carnal nunca se desfez por completo, por mais tentativas que a Igreja tenha investido.
Segundo o Dicionário Houaiss, as variações carnelevarium, carnilevaria e carnilevamen deram origem ao milanês carnelevale, no século 12, que depois se oficializa no idioma italiano como carneval, no século 14. Este dá origem ao francês carneval, em 1552, e carnaval, em 1680, com o último influenciando as demais línguas europeias ainda no século 17, inclusive a portuguesa.
É nesse período que a festa chega por aqui no Brasil, como a festa do Entrudo, evoluindo para desfiles e festas de rua modernos.
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