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Como é feito um livro didático, das editoras até a sala de aula

Os materiais que chegam às carteiras dos estudantes são antes avaliados por professores, comprados pelo governo e distribuídos por todo o Brasil

Por Carolina Unzelte 26 mar 2026, 15h00 •
livro didatico
 (Agencia Brasil/Reprodução)
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  • Para você, ele é uma ferramenta de estudo cotidiana, mas, por trás de cada página, existe um processo que dura anos, envolve centenas de especialistas e movimenta uma logística continental. Para chegar até os estudantes, o livro didático deve estar alinhado à BNCC (Base Nacional Comum Curricular), um documento que define a aprendizagem em cada etapa da educação básica – mas esse é apenas o primeiro passo de um processo que envolve educação, design e políticas públicas.

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    A base de tudo

    Antes mesmo da concepção do livro, é importante lembrar que o Brasil possui o maior programa de compra de livros do mundo, o PNLD (Programa Nacional do Livro e do Material Didático), que inclui não apenas materiais didáticos tradicionais, mas também obras literárias, por exemplo. Isso é importante porque é por meio dele que as escolas públicas, que contam com cerca de 80% do total de matrículas, recebem seus materiais. 

    Assim, além da BNCC, é o que é pedido pelo PNLD que orienta o que as editoras decidem produzir, diz Ângelo Xavier, presidente da Abrelivros (Associação Brasileira de Livros e Conteúdos Educacionais). “No PNLD, a demanda surge diretamente do Ministério da Educação. A cada ano, eles pedem obras para um determinado segmento”. Este ano, por exemplo, é a vez das obras dos anos iniciais do Ensino Fundamental I. 

    Para isso, elas contam com um edital, que funciona como um manual de regras técnicas e de conteúdo. Professores e especialistas, bem como a sociedade civil em geral, podem contribuir para a minuta do edital em audiências públicas, colocando suas preocupações e prioridades.

    Ao GUIA DO ESTUDANTE, o MEC afirmou que “o edital é composto por orientações técnicas, que tratam da estrutura física do livro, e por orientações pedagógicas, que referenciam os critérios do edital em termos de conteúdo”. Entre esses critérios, destaca-se a “atualização conceitual e a não utilização de termos datados”.

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    Assim, o conteúdo dos livros didáticos têm de, obrigatoriamente, não apenas ter rigor científico, mas estar alinhado à BNCC e ao edital. Apesar de todos os procedimentos criados para garantir a isenção e qualidade, há grupos que podem tentar influenciar o conteúdo desses materiais. 

    Segundo reportagem do site Aos Fatos, há grupos de lobby ligados ao agronegócio, por exemplo, que procuram influenciar conteúdos escolares com narrativas favoráveis a esse grupo econômico. “Eles têm procurado as editoras e feito alguns debates, algumas discussões, eles entendem que o agro de alguma forma maltratado pelos livros didáticos”, diz Ângelo Xavier. “Mas o que existe é escuta, não interferência. A ciência está acima de tudo”.

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    Iniciem as máquinas

    O tempo também é crucial quando pensamos na produção, já que pode demorar entre um ano e um ano e meio para produzir um livro, diz Xavier. Assim, o que vai ser inscrito agora para obras do Fundamental I na verdade já teve seu pontapé inicial lá atrás. 

    Nas editoras, o conteúdo pode ser gerado de duas formas principais: por autores independentes, com professores e especialistas que desenvolvem seus próprios métodos e submetem à editora, ou por encomenda, quando a editora identifica uma necessidade específica do edital e escala autores para escrever a obra.

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    Uma vez finalizado o processo de escrita, os editores preparam o texto. “Temos editores de ciências humanas, editores de ciências naturais, editores da área de linguagem”, detalha Xavier. É nessa fase que há eventuais ajustes. Depois, é o time de design que entra em ação, selecionando também fotos, ilustrações, mapas e a criação de infográficos. Por fim, é na diagramação que texto e recursos visuais se unem, para chegar nas páginas que você vai ver depois. 

    Tudo o que compõe o livro (textos de terceiros, fotos, ilustrações) precisa ser licenciado legalmente. “Nosso insumo principal é direito autoral. Então, o direito autoral tem que ser super cuidado”, explica Xavier. Existe uma equipe dedicada exclusivamente a garantir que todos os créditos e permissões estejam em dia. Além disso, antes de fechar o arquivo, as editoras fazem uma última checagem se o material atende 100% às competências e habilidades da BNCC e se cumpre todas as exigências técnicas e pedagógicas do edital do MEC. Só então o livro vai para a gráfica, e é, de fato, impresso.

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    Hoje, as editoras também têm núcleos de produção digital para criar versões do material  em HTML5 (que permitem interatividade), além de outros objetos digitais de aprendizagem, como vídeos, áudios e simuladores. É só pensar na importância que os áudios têm nas aulas de línguas estrangeiras, por exemplo. 

    Segundo o MEC, “cada material e cada tamanho de tela mobilizam funções cognitivas diferentes. A aprendizagem no computador difere da aprendizagem no tablet, assim como da aprendizagem em papel. A prática de leitura e escrita em papel propicia a aprendizagem e ajuda os estudantes a terem mais foco e conforto visual. Ainda que os materiais didáticos sejam virtuais ou digitais, a versão física deve continuar existindo”. 

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    Pente fino e compras

    Antes de serem aprovados, os livros passam por uma avaliação com uma banca de especialistas – geralmente professores universitários das respectivas áreas dos livros. Eles formam uma comissão, e seus nomes são divulgados no Diário Oficial da União (DOU). A análise dos materiais é realizada por metodologia de duplo cego: isso significa que nem o avaliador sabe quem é a editora, nem a editora sabe quem está avaliando. 

    Os especialistas verificam, “uma a uma, as habilidades ou competências da BNCC presentes nos materiais didáticos”, segundo o MEC. Caso existam erros, a editora tem uma chance. “A editora, caso não ultrapasse 10% de falhas em relação ao total de páginas, tem a oportunidade de corrigi-las”, diz o MEC. Só então o livro entra no guia do PNLD, e pode ser adquirido por escolas.

    “O que mais invalida um livro no PNLD é, primeiramente, o descumprimento de algum item do edital. Por vezes, a questão não está na coleção em si, mas no não cumprimento de algum requisito formal. De modo geral, a reprovação se dá por excesso de falhas pontuais ou erros conceituais, reforço de estereótipos e descumprimento de critérios taxativos previstos no edital”, afirma o MEC.

    Já na hora das compras, uma dúvida comum é por que não há uma licitação de preços tradicional, isto é, o processo de compras típico que o governo adota para comprar produtos, com apresentação de concorrentes em pé de igualdade e opção pelo de maior custo-benefício.

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    O FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação), responsável pelas compras do PNDL, explica que há inexigibilidade para a licitação. Trocando em miúdos, isso quer dizer que “cada livro tem apenas uma editora detentora dos direitos autorais, não havendo concorrência possível para aquele título específico”. A negociação é feita pela Comissão Especial de Negociação (CEN), que busca, segundo o FNDE, “chegar a um preço unitário justo e sustentável tanto para o governo quanto para a editora”, aproveitando o imenso volume de escala da compra pública.

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    Mesmo com o Guia do PNLD, quem decide qual livro vai para a sua mochila é o seu professor. As escolas votam no livro que querem utilizar em sala de aula, e, em 2025, por exemplo, foram realizadas escolhas para livros Literários de Educação de Jovens e Adultos, e didáticos para o Ensino Médio. Todas as escolas públicas podem participar, mas nem sempre é o caso, como podemos observar nos dados do FNDE em relação a 2025:

    • PNLD Educação de Jovens e Adultos – 69% das escolas aptas registraram escolha
    • PNLD Anos Iniciais (Literário) – 62% das escolas aptas registraram escolha
    • PNLD Anos Finais (Literário) – 67% das escolas aptas registraram escolha
    • PNLD Ensino Médio – 96% das escolas aptas registraram escolha

    “O consenso deve ser buscado dentro da própria escola, pois a escolha impacta todos os professores e o trabalho pedagógico da instituição. O debate sobre os aspectos didáticos, bem como os prós e contras de cada obra, é rico e valoroso”, diz o MEC. 

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    Sua encomenda está a caminho

    Depois de impressos e comprados, o desafio é entregá-los. Escolas fora de zonas urbanas, como comunidades rurais, ribeirinhas, quilombolas e indígenas, por exemplo, contam com uma logística diferente, segundo o FNDE, com parceria das redes de ensino. “Nesses casos, as secretarias de educação ou prefeituras recebem os materiais e ficam responsáveis por encaminhá-los às unidades escolares, devendo manter os comprovantes de recebimento e entrega pelo prazo mínimo de quatro anos”, explica o órgão. 

    Apesar de sua magnitude, o PNLD também tem sofrido pressões orçamentárias, como outras políticas públicas. No ano passado, a compra de livros para reposição ficou limitada às disciplinas de português e matemática, diz Ângelo Xavier. Dificuldades como essa também atrasam o cronograma geral, fazendo com que as escolas demorem a receber as obras. “Sonhamos e lutamos para que os alunos tenham contato não só com livros didáticos, mas com revistas, textos de internet, textos literários, para que possam se transformar em leitores”, diz Ângelo Xavier.

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