As big techs estão nos levando para a Idade Média? Conheça o tecnofeudalismo
Teoria criada por economista grego aponta este modelo como o "assassino" do capitalismo como conhecemos

Nos últimos anos, um novo termo tem ganhado espaço entre economistas e teóricos da tecnologia: tecnofeudalismo. O conceito, que pode soar complexo à primeira vista, descreve uma dinâmica econômica em ascensão em que grandes corporações tecnológicas – as famosas big techs – assumem o papel de “senhores feudais” do mundo digital. No lugar de terras, elas controlam plataformas, dados e infraestruturas essenciais, tornando usuários, pequenos negócios e trabalhadores digitais dependentes de suas regras. Mais ou menos como acontecia na Idade Média.
O termo foi popularizado pelo economista grego Yanis Varoufakis no livro (ainda sem publicação no Brasil) “Tecnofeudalismo: o que matou o capitalismo” (em tradução livre). Ele defende que o capitalismo como conhecemos está sendo substituído por um modelo no qual o valor não vem mais da produção e troca de bens, mas do controle sobre a infraestrutura digital.
Diferentemente do livre mercado tradicional, onde empresas concorrem entre si por clientes, no tecnofeudalismo algumas poucas corporações dominam setores inteiros, estabelecendo suas próprias normas e restringindo a autonomia de quem depende delas.
Com isso, a economia digital passa a se parecer menos com o capitalismo industrial e mais com a estrutura da Idade Média: plataformas como Google, Apple, Meta e Amazon tornam-se os novos senhores feudais, cobrando taxas, coletando dados e impondo barreiras de entrada para concorrentes.
Neste texto, o GUIA DO ESTUDANTE te apresenta ao tecnofeudalismo, apontado por alguns pensadores como o principal “assassino” do capitalismo.
O que é o tecnofeudalismo?
O termo “tecnofeudalismo” não foi escolhido por acaso: ele estabelece um paralelo direto com o feudalismo da Idade Média, sistema vigente entre os séculos 5 e 15, quando os senhores feudais detinham o controle das terras e cobravam tributos dos camponeses que precisavam delas para sobreviver. Certo, e onde está o paralelo? Hoje, no contexto digital, as grandes plataformas (as tais big techs) funcionariam como esses senhores feudais, enquanto nós, usuários e empresas menores, seriam como os camponeses, que precisam “pagar” para acessar essas “terras digitais”.
Ainda nessa lógica, os tributos seriam as taxas cobradas para que se possa “viver” dentro dessas “terras” – o valor de uma assinatura, ou, o que é ainda mais comum, dados sobre o seu comportamento, que podem ser vendidos para o mercado. Pois é, todas as vezes que você cria uma conta em redes sociais está “pagando” com seus dados.
“Os algoritmos que regulam o fluxo de informação, o comércio e o trabalho online operam como portões invisíveis que determinam quem pode prosperar e quem será excluído”, explica Luis Felipe Valle, professor de Geografia e Atualidades do Colégio Oficina do Estudante. “A ideia de concorrência se torna ilusória, pois essas corporações estabelecem ecossistemas fechados que tornam usuários e produtores de conteúdo reféns de suas condições”.
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Assim como no feudalismo, a autonomia de indivíduos e pequenas empresas é limitada. As regras são ditadas por quem controla a infraestrutura. Em uma única sala, é possível reunir todos os nomes por trás da maior parte do mundo digital. E, se um desses nomes decide encerrar sua plataforma do dia para a noite, o impacto se torna imensurável, com pessoas perdendo empregos instantaneamente.
Nesse esquema, o tecnofeudalismo vai descrevendo uma nova estrutura econômica. Diferentemente do capitalismo industrial, em que o lucro vem principalmente da produção e venda de bens e serviços, ele se baseia no controle das plataformas digitais, dados e infraestruturas tecnológicas para extrair valor.
“No lugar da propriedade privada acessível ao cidadão comum, surgem cercamentos digitais e a ilusão do ’empreendedorismo’ em sistemas que, na prática, tornam usuários e trabalhadores cada vez mais dependentes e precarizados”, afirma o professor Luis Felipe Valle.
Dados que cimentam monopólios

Se no capitalismo tradicional o lucro vinha da exploração do trabalho e da produção de mercadorias, no tecnofeudalismo, a principal fonte de riqueza é a coleta e o controle de dados. As grandes empresas de tecnologia utilizam algoritmos para coletar informações sobre o comportamento dos usuários e transformá-las em insumos valiosos para publicidade, manipulação de mercado e desenvolvimento de novas tecnologias.
“As big techs extraem valor da coleta e análise massiva de dados, determinando comportamentos de consumo, preferências políticas e até mesmo decisões cotidianas dos indivíduos”, afirma. “A atenção dos usuários se torna uma mercadoria, em que os algoritmos promovem conteúdos para maximizar engajamento e lucro. E essa lógica tem implicações profundas: redes sociais e mecanismos de busca moldam a opinião pública, influenciam eleições e reforçam desigualdades ao priorizar quem pode ou não ter visibilidade.”
Tudo isso cria um ciclo vicioso: quanto mais dados uma empresa tem, mais poder ela ganha sobre o mercado e mais difícil se torna para novos concorrentes surgirem. Diferentemente do capitalismo de livre mercado, em que a competição, em tese, impulsiona a inovação, o tecnofeudalismo gera monopólios cada vez mais invencíveis. Basta olhar para os titãs Google, Apple, Amazon e Meta.
“A dependência cada vez maior das plataformas no nosso dia-a-dia (ambientes de educação, apps de transporte, compras, finanças, relacionamento, aluguel, viagens etc.) não é uma consequência espontânea dos avanços tecnológicos, mas uma estratégia articulada entre atores hegemônicos do capitalismo global (Estado, grandes corporações, instituições financeiras, imprensa e indústria cultural) para dar manutenção ao controle que exercem sobre as sociedades.”
Luis Felipe Valle, professor
Servos digitais
A consolidação desses monopólios nos leva a outra grande consequência do formato: a precarização do trabalho. Trabalhadores autônomos sem vínculos empregatícios formais, trabalhando em condições determinadas por regras algorítmicas das plataformas.
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“Motoristas de aplicativos, entregadores, criadores de conteúdo e freelancers vivem sob um modelo de ’emprecariado’, no qual são forçados a aceitar trabalhos sob demanda sem qualquer segurança ou possibilidade de ascensão real”, explica o professor. “Assim como no feudalismo tradicional, onde os servos trabalhavam para senhores em troca de um mínimo de sustento, esses trabalhadores dependem das big techs para gerar renda, mas estão sujeitos a regras arbitrárias, variações de demanda e um sistema de vigilância algorítmica que pode penalizá-los sem explicação.”
A complexidade do problema é tanta que, ao longo de 2024, a proposta do Governo Federal brasileiro de regulamentar esses vínculos trabalhistas foi recebida com divergências. Enquanto uns apoiavam o projeto, outros viam nele uma tentativa de limitar a liberdade do trabalhador de controlar sua própria jornada de trabalho e a implementação de impostos.
“Enfrentar esse modelo exige o enfrentamento do controle ‘feudal’ das corporações tecnológicas, que são frequentemente apoiadas por governos autoritários e pelo lobby corporativo que impede avanços regulatórios”, pontua Luis Felipe.
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E tem escapatória?
Especialistas sugerem que novas formas de organização do trabalho podem surgir como alternativa ao domínio das big techs. Modelos cooperativos, plataformas descentralizadas e regulamentações mais rígidas podem ser passos importantes para garantir que a tecnologia seja usada para promover o bem-estar coletivo, e não apenas para enriquecer (ainda mais) um pequeno grupo de empresas. A digitalização da economia é um processo irreversível, mas a forma como ela é conduzida ainda está em disputa.
“Modelos econômicos baseados em plataformas cooperativas, código aberto e redes comunitárias podem substituir a dependência das big techs, garantindo maior autonomia digital e soberania dos dados. Além disso, fortalecer economias locais, agroecologia e infraestrutura pública pode reduzir a precarização do trabalho e o domínio das plataformas sobre bens essenciais como moradia, transporte e conhecimento”, conclui o professor. “O que está em jogo não é apenas a economia, mas a forma como interagimos, trabalhamos e até mesmo pensamos sobre nossa privacidade e direitos digitais.”
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