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As big techs estão nos levando para a Idade Média? Conheça o tecnofeudalismo

Teoria criada por economista grego aponta este modelo como o "assassino" do capitalismo como conhecemos

Por Luccas Diaz Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
15 fev 2025, 15h00
Imagem traz, lado a lado, imagem de homem no século 15 e homem no século 21
Termo cunhado por economista grego descreve novo formato econômico em ascensão  (Wikimedia Commons/Canva/Guia do Estudante)
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Nos últimos anos, um novo termo tem ganhado espaço entre economistas e teóricos da tecnologia: tecnofeudalismo. O conceito, que pode soar complexo à primeira vista, descreve uma dinâmica econômica em ascensão em que grandes corporações tecnológicas – as famosas big techs – assumem o papel de “senhores feudais” do mundo digital. No lugar de terras, elas controlam plataformas, dados e infraestruturas essenciais, tornando usuários, pequenos negócios e trabalhadores digitais dependentes de suas regras. Mais ou menos como acontecia na Idade Média.

O termo foi popularizado pelo economista grego Yanis Varoufakis no livro (ainda sem publicação no Brasil) “Tecnofeudalismo: o que matou o capitalismo” (em tradução livre). Ele defende que o capitalismo como conhecemos está sendo substituído por um modelo no qual o valor não vem mais da produção e troca de bens, mas do controle sobre a infraestrutura digital.

Diferentemente do livre mercado tradicional, onde empresas concorrem entre si por clientes, no tecnofeudalismo algumas poucas corporações dominam setores inteiros, estabelecendo suas próprias normas e restringindo a autonomia de quem depende delas.

Com isso, a economia digital passa a se parecer menos com o capitalismo industrial e mais com a estrutura da Idade Média: plataformas como Google, Apple, Meta e Amazon tornam-se os novos senhores feudais, cobrando taxas, coletando dados e impondo barreiras de entrada para concorrentes.

Neste texto, o GUIA DO ESTUDANTE te apresenta ao tecnofeudalismo, apontado por alguns pensadores como o principal “assassino” do capitalismo.

O que é o tecnofeudalismo?

O termo “tecnofeudalismo” não foi escolhido por acaso: ele estabelece um paralelo direto com o feudalismo da Idade Média, sistema vigente entre os séculos 5 e 15, quando os senhores feudais detinham o controle das terras e cobravam tributos dos camponeses que precisavam delas para sobreviver. Certo, e onde está o paralelo? Hoje, no contexto digital, as grandes plataformas (as tais big techs) funcionariam como esses senhores feudais, enquanto nós, usuários e empresas menores, seriam como os camponeses, que precisam “pagar” para acessar essas “terras digitais”.

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Ainda nessa lógica, os tributos seriam as taxas cobradas para que se possa “viver” dentro dessas “terras” – o valor de uma assinatura, ou, o que é ainda mais comum, dados sobre o seu comportamento, que podem ser vendidos para o mercado. Pois é, todas as vezes que você cria uma conta em redes sociais está “pagando” com seus dados.

“Os algoritmos que regulam o fluxo de informação, o comércio e o trabalho online operam como portões invisíveis que determinam quem pode prosperar e quem será excluído”, explica Luis Felipe Valle, professor de Geografia e Atualidades do Colégio Oficina do Estudante. “A ideia de concorrência se torna ilusória, pois essas corporações estabelecem ecossistemas fechados que tornam usuários e produtores de conteúdo reféns de suas condições”.

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Assim como no feudalismo, a autonomia de indivíduos e pequenas empresas é limitada. As regras são ditadas por quem controla a infraestrutura. Em uma única sala, é possível reunir todos os nomes por trás da maior parte do mundo digital. E, se um desses nomes decide encerrar sua plataforma do dia para a noite, o impacto se torna imensurável, com pessoas perdendo empregos instantaneamente.

Nesse esquema, o tecnofeudalismo vai descrevendo uma nova estrutura econômica. Diferentemente do capitalismo industrial, em que o lucro vem principalmente da produção e venda de bens e serviços, ele se baseia no controle das plataformas digitais, dados e infraestruturas tecnológicas para extrair valor.

“No lugar da propriedade privada acessível ao cidadão comum, surgem cercamentos digitais e a ilusão do ’empreendedorismo’ em sistemas que, na prática, tornam usuários e trabalhadores cada vez mais dependentes e precarizados”, afirma o professor Luis Felipe Valle.

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Dados que cimentam monopólios

Fachado do escritório do Google na Irlanda, com logotipo da empresa
Escritório do Google, na Irlanda (Wikimedia Commons/Reprodução)

Se no capitalismo tradicional o lucro vinha da exploração do trabalho e da produção de mercadorias, no tecnofeudalismo, a principal fonte de riqueza é a coleta e o controle de dados. As grandes empresas de tecnologia utilizam algoritmos para coletar informações sobre o comportamento dos usuários e transformá-las em insumos valiosos para publicidade, manipulação de mercado e desenvolvimento de novas tecnologias.

“As big techs extraem valor da coleta e análise massiva de dados, determinando comportamentos de consumo, preferências políticas e até mesmo decisões cotidianas dos indivíduos”, afirma. “A atenção dos usuários se torna uma mercadoria, em que os algoritmos promovem conteúdos para maximizar engajamento e lucro. E essa lógica tem implicações profundas: redes sociais e mecanismos de busca moldam a opinião pública, influenciam eleições e reforçam desigualdades ao priorizar quem pode ou não ter visibilidade.”

Tudo isso cria um ciclo vicioso: quanto mais dados uma empresa tem, mais poder ela ganha sobre o mercado e mais difícil se torna para novos concorrentes surgirem. Diferentemente do capitalismo de livre mercado, em que a competição, em tese, impulsiona a inovação, o tecnofeudalismo gera monopólios cada vez mais invencíveis. Basta olhar para os titãs Google, Apple, Amazon e Meta.

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“A dependência cada vez maior das plataformas no nosso dia-a-dia (ambientes de educação, apps de transporte, compras, finanças, relacionamento, aluguel, viagens etc.) não é uma consequência espontânea dos avanços tecnológicos, mas uma estratégia articulada entre atores hegemônicos do capitalismo global (Estado, grandes corporações, instituições financeiras, imprensa e indústria cultural) para dar manutenção ao controle que exercem sobre as sociedades.”

Luis Felipe Valle, professor

Servos digitais

A consolidação desses monopólios nos leva a outra grande consequência do formato: a precarização do trabalho. Trabalhadores autônomos sem vínculos empregatícios formais, trabalhando em condições determinadas por regras algorítmicas das plataformas.

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“Motoristas de aplicativos, entregadores, criadores de conteúdo e freelancers vivem sob um modelo de ’emprecariado’, no qual são forçados a aceitar trabalhos sob demanda sem qualquer segurança ou possibilidade de ascensão real”, explica o professor. “Assim como no feudalismo tradicional, onde os servos trabalhavam para senhores em troca de um mínimo de sustento, esses trabalhadores dependem das big techs para gerar renda, mas estão sujeitos a regras arbitrárias, variações de demanda e um sistema de vigilância algorítmica que pode penalizá-los sem explicação.”

A complexidade do problema é tanta que, ao longo de 2024, a proposta do Governo Federal brasileiro de regulamentar esses vínculos trabalhistas foi recebida com divergências. Enquanto uns apoiavam o projeto, outros viam nele uma tentativa de limitar a liberdade do trabalhador de controlar sua própria jornada de trabalho e a implementação de impostos.

“Enfrentar esse modelo exige o enfrentamento do controle ‘feudal’ das corporações tecnológicas, que são frequentemente apoiadas por governos autoritários e pelo lobby corporativo que impede avanços regulatórios”, pontua Luis Felipe.

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E tem escapatória?

Especialistas sugerem que novas formas de organização do trabalho podem surgir como alternativa ao domínio das big techs. Modelos cooperativos, plataformas descentralizadas e regulamentações mais rígidas podem ser passos importantes para garantir que a tecnologia seja usada para promover o bem-estar coletivo, e não apenas para enriquecer (ainda mais) um pequeno grupo de empresas. A digitalização da economia é um processo irreversível, mas a forma como ela é conduzida ainda está em disputa.

“Modelos econômicos baseados em plataformas cooperativas, código aberto e redes comunitárias podem substituir a dependência das big techs, garantindo maior autonomia digital e soberania dos dados. Além disso, fortalecer economias locais, agroecologia e infraestrutura pública pode reduzir a precarização do trabalho e o domínio das plataformas sobre bens essenciais como moradia, transporte e conhecimento”, conclui o professor. “O que está em jogo não é apenas a economia, mas a forma como interagimos, trabalhamos e até mesmo pensamos sobre nossa privacidade e direitos digitais.”

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